«Cuiabá»
José Luís Peixoto
Eram os últimos dias de setembro. Ainda
estava calor de verão em Lisboa, quando subi as
escadas do avião que me iria levar a Cuiabá. No
Rio de Janeiro, mudança de aeroporto, táxi,
malas e, à noite, num avião pequeno, cheguei a
Cuiabá. Fui levado ao hotel. Tudo perfeito? Tudo
perfeito. Chegava para duas semanas de Brasil,
das quais passaria uma em Cuiabá e a outra seria
repartida entre Brasília e Rio de Janeiro. Da janela
do meu quarto, olhava a avenida nocturna, de
carros permanentes, e tentava recordar-me do
pouco que tinha conseguido aprender sobre
Cuiabá na internet, não muito. Apesar de toda a
incerteza sobre aquele que poderia ser o meu
destino na semana que começava, tinha um bom
pressentimento, uma vez que vinha para participar
num evento de literatura latino-americana, e
o melhor lugar para encontrar literatura latino-
-americana é, até prova em contrário, na América
Latina. Acreditava que deveria existir alguma
razão para Cuiabá ter o mesmo valor de Brasília
somada ao Rio de Janeiro. Aquilo que eu ainda
não podia saber era que os organizadores do
evento, apesar de me terem comprado bilhete de
avião e reservado quarto no hotel, não contavam
com a minha presença, não me tinham colocado
como participante de nenhum debate ou palestra
e comportavam-se como se nunca me tivessem
visto, lido ou imaginado...
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