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Manifesto Editorial
João Ventura
jventura_atlantica@yahoo.com
A aposta numa revista de natureza multidisciplinar sobre a experiência cultural ibero-americana constitui um desafio ético aberto à participação daqueles que acreditam que a cultura, para além de factor de identidade dos povos, é, ainda, vector de aproximação intercultural, na circunstância, entre as duas margens atlânticas. Pensamos que um projecto desta natureza deverá traduzir uma certa epistemolização de um discurso sobre a Ibero-América, assente em motivações culturais, éticas, estéticas e políticas suficientemente claras para todos os que queiram colaborar. Não recusamos, portanto, um método e uma programação que, aliás, o roteiro de conteúdos previamente definido pretende expressar. Mas, ainda assim, esse método deve ser entendido mais na acepção de caminho ou trajecto do que na sua expressão positivista. Por isso, embora tenhamos ideias claras e distintas sobre a forma de abordar a experiência cultural ibero-americana, não rejeitamos trabalhar com intenções e ficções de todo o género para nos aventurarmos nesse «jardim dos caminhos que se bifurcam» que é a Ibero-América. E que poderá ser também esta revista, em termos dos itinerários de sentidos a percorrer. Trata-se, então, de um exercício da nossa curiosidade em relação ao «velho Novo Mundo» que há quinhentos anos os nossos navegadores começaram a inventar e ao qual, hoje, com este projecto editorial, procuramos regressar, interpretando sinais, traços, distinções, semelhanças onde se espelha a alma ibero-americana cuja matriz é, também, lusófona. Da experiência indo-afro-ibero-americana tratará, pois, esta revista, espécie de ponte sobre o Atlântico atravessada nos dois sentidos para nos reconhecermos, uns e outros, na nossa outra metade comum. Porque para nós hoje, como no passado o foi para os navegadores ibéricos, o Atlântico não separa, antes une dois continentes. Mar de encontros, portanto, apesar do desencontro inicial da conquista. Porque as águas que fluem nas nossas praias ibéricas, atlânticas as de Portugal, mediterrânicas as da Andaluzia, são as mesmas que banham as Antilhas, entram pelo Golfo do México e correm, depois, rumo ao sul ao longo da costa da América do Sul, unindo-se, finalmente, ao Pacífico no Estreito de Magalhães, para voltar a subir numa viagem de circum-navegação que incessantemente recomeça. Eis a geografia exterior da Ibero-América que é, também, a referência espacial da revista e que nos leva a perguntar, como, o que fazemos ali, no outro lado do mar, quando como turistas acidentais percorremos as paisagens, as gentes, as culturas, os costumes, as gastronomias e as surpresas do «velho Novo Mundo». A história comum de encontros e desencontros. De Vespúcio e dos cronistas das Índias a Neruda, Carpentier e Gabriel García Márquez, quase sempre uma América inventada, imaginada, feita de encantos e desencantos. Mas também a Ibero-América imaginada por Borges, Cortázar, Valejo, Paz, Onetti, Jorge Amado e tantos outros, cujas vidas são como as estrelas, caindo do alto do céu sobre este imenso Sul. E também aqueles que, como uma imensa corrente atlântica, derramam nas nossas praias as novas figuras da modernidade ibero-americana. Os lugares de partida e de chegada da «vaga gente sem geografia cumprindo em sua carne, obscuramente, seus hábitos», como conta Borges a Pessoa. Os portos e as praias da memória. Outras travessias de ida e volta entre a saudade e a esperança de corações emigrantes navegando num mar Atlântico em cujas águas verdes, azuis e negras se espelha a nossa essência comum. Ver toda a América desde Machu Picchu. Das águas verde-limão das Caraíbas às «altas solidões» dos Andes. Da infinita e verde Amazónia aos glaciares azuis do Sul da Patagónia. Das paisagens lunares do deserto de Atacama aos inumeráveis fiordes do arquipélago de Chiloé. Viagem através dos seus «rios profundos». «Rios de raças, pátrias de raízes», no dizer de Neruda. Amazonas, Magdalena, Urubamba, Orinoco. «América arvoredo, sarça selvagem entre os mares», onde crescem o jacarandá e a araucária, mas também o café, o tabaco e o chocolate. Sobrevoada por tucanos, colibris, papagaios e condores. E onde, à noite, assoma o jaguar. Também, os lugares dos antigos construtores. Chichén Itzá,Teotihuacán, Mayapán. Resgatar «memória do fogo» os mitos fundadores, as primeiras vozes, os lugares da criação. Quetzalcóatl. Pachacamac. As cidades. As da ausência, a Cuzco inca ou a Tenochititlán asteca, em cujos labirintos imaginários nos perdemos. E as outras, ibero-americanas. A Cidade do Panamá, espécie de ilha cercada de selva e mar. A Cidade do México, «cidade do sol parado, cidade de calcinações longas, cidade a fogo lento». Ou Santiago «das mulheres formosas com olhares de uva». Ou o Rio de Janeiro, cidade maravilhosa. Ou a secreta Buenos Aires inventada por Borges. Ou todas as outras que convidamos a descobrir, «porque aquilo que nos interessa é o que o viajante vê». Outras inquirições, também. A Ibero-América nascida como tragédia que se repete, hoje, como melodrama na vida de todos os dias. Excesso e improvisação em cenário de telenovela. A «maracanização» do continente. Violência e narcotráfico. As tremendas desigualdades sociais. Mas também os novos movimentos sociais. Outras conspirações. A política entendida como «sinónimo de reconstrução, mas sobretudo de construção, na Ibero-América». Por isso, como acredita Carlos Fuentes, a esperança de uma melhor Ibero-América, no futuro, onde a utopia dos que viveram «os cem anos de solidão» possa recuperar, finalmente, o seu rosto verdadeiro.
Estatuto Editorial
ATLÂNTICA é uma revista de periodicidade semestral de informação e difusão histórico-cultural sobre o espaço ibero-americano, propriedade do Instituto de Cultura Ibero-Atlântica, orientada por critérios de rigor científico e criatividade editorial, sem qualquer dependência de ordem ideológica, política e económica. ATLÂNTICA tem como referência editorial um amplo conjunto de revistas de informação e difusão cultural exigente e de qualidade, recusando, por isso, o facilitismo ou qualquer exploração mercantil da matéria informativa. ATLÂNTICA aposta numa informação diversificada sobre o espaço cultural ibero-americano, conciliando matéria informativa com conteúdos de carácter científico ou de criação literária, abrangendo domínios tão variados como a história, a sociologia, a política, a antropologia, a economia, a geografia, a literatura, a arte, entre outros, correspondendo às motivações e interesses de um público interessado na problemática cultural ibero-americana. ATLÂNTICA entende que as novas possibilidades técnicas da informação implicam uma prática editorial inovadora, atractiva e imaginativa na sua permanente comunicação com os leitores, procurando, por isso, conciliar o rigor da matéria difundida com a procura de formas inovadoras e estimulantes de edição da realidade histórico-cultural ibero-americana. ATLÂNTICA promoverá o diálogo e o intercâmbio científico e cultural, constituindo um espaço editorial de apresentação e visibilidade de projectos e iniciativas que visam a promoção intercultural entre pessoas e instituições do espaço ibero-americano. ATLÂNTICA constitui, simultaneamente, um espaço de apresentação da realidade histórico-cultural ibero-americana em Portugal e de afirmação da identidade cultural portuguesa no mundo ibero-americano.
Procedimentos de Arbitragem Científica
Procedimentos da arbitragem científica Ponto 1. Da selecção de autores de textos e de imagens para publicação na Revista Atlântica Os textos e imagens podem ser solicitados a autores pelo Conselho Editorial ou pelo Director da Revista de acordo com o seu mérito científico, artístico, literário ou cultural. As propostas formuladas pelos autores serão sujeitas a apreciação pelo Conselho Editorial mediante os critérios definidos. Ponto 2. Dos critérios de selecção dos textos e imagens 2.1. Os textos de natureza científica apresentados ao Conselho Editorial para publicação deverão obedecer aos seguintes critérios: Rigor científico Aparato crítico Clareza do discurso e correcção linguística Dimensão adequada a cada rubrica ou secção 2.2. Os textos de natureza literária apresentados ao Conselho Editorial para publicação deverão obedecer aos seguintes critérios: Estética da linguagem Clareza do discurso e correcção linguística Coerência com a rubrica ou secção em que se integram Dimensão adequada a cada rubrica ou secção 2.3. Os textos de natureza cultural apresentados ao Conselho Editorial para publicação deverão obedecer aos seguintes critérios: Actualidade do tema Clareza do discurso e correcção linguística Coerência com a rubrica ou secção em que se integram Dimensão adequada a cada rubrica ou secção 2.4. As imagens apresentados ao Conselho Editorial para publicação deverão obedecer aos seguintes critérios: A iconografia de arquivo deve mencionar adequadamente a fonte, de acordo com a norma. As fotografias, os desenhos ou as gravuras originais devem adequar-se esteticamente à concepção artística global da Revista, podendo ser reduzidas, ampliadas ou fragmentadas de forma a integrar-se nos textos que pretendem ilustrar. Todas as imagens deverão integrar-se com coerência nos conteúdos da Revista. 2.5. Das antologias ou excertos de obras já publicadas Todos os textos ou imagens já publicadas, na totalidade ou em parte, só poderão ser reproduzidas com autorização escrita dos autores, editores ou arquivos, conforme o caso. 2.6. Dos direitos de autor Todos os textos ou imagens são da responsabilidade dos autores, em respeito absoluto pela apreciação vinculativa do Conselho Editorial. Todos os textos ou imagens terão a menção da autoria. Os textos traduzidos serão sempre sujeitos a concordância dos autores. Todos os textos ou imagens publicadas são propriedade da Revista Atlântica por cedência de direitos dos respectivos autores. 2.7. Da apreciação do Conselho Editorial a) Eventuais propostas de alteração, correcção ou reformulação dos textos formuladas pelo Conselho Editorial terão de ser aceites pelos autores, sob pena de não publicação.
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